Minha vida: um eterno sobe e desce do ponteiro da balança

Cheguei aos 67 kg duas vezes. A primeira foi aos 15 anos, depois de uma temporada num SPA. Voltei a engordar, e, aos 18, batalhei mais uma vez para atingir o meu “peso ideal”. Dessa vez, eu já ganhava dinheiro para comprar minhas roupas. Aos detalhes.

Uma jornada atrás da cintura perdida

Arrumei minha mala escolhendo só o estritamente necessário:  camisetas enormes, calça bailarina, calça de moletom, maiô preto, roupão, meias, tops de lycra, tênis e chinelo. Meu destino era um SPA, aquele lugar que, até então, parecia a definição exata de um centro de tortura. Caminhadas? Malhação? Alimentação controlada? Eu não tinha nada disso nos meus planos, mas, naquela altura dos acontecimentos, parecia inevitável.

Aos 15 anos, eu era a mais nova de todos os hóspedes: os outros tinham de 16 a 22 anos, e uma pequena minoria tinha mais de 30. Éramos jovens e tínhamos vitalidade para todas as manhãs, empolgados, falar sobre comida. Durante a tarde, nos divertíamos muito… conversando sobre comida. À noite, nos reuníamos na sala de TV para falar de… comida!

Ao longo do dia, entre um exercício localizado e uma caminhada, a hora do descanso e a hidroginástica, recebíamos seis refeicões: café da manhã, almoço e jantar, intercalados por pequenos lanches. A quantidade era sempre pouca, mas a força de vontade era muita. A intenção era deixar o SPA e trocar o meu figurino largão por jeans de cintura baixa e blusinhas que pudessem marcar o que eu haveria de descobrir no meu corpo: a minha cintura.

Por baixo do roupão: maiôs, bermudas e gordura

Durante as caminhadas, era só reclamação. Nas aulas de hidro, nos sentíamos livres e leves dentro da água, mas levava um tempo para criar coragem e dar o primeiro mergulho. O receio geral era tirar o roupão e revelar o que havia por baixo:  maiô, bermuda, e… gordura. Demorou a cair a ficha de que estávamos todos no mesmo barco, e que ninguém seria escrachado. Fiquei 20 dias internada no SPA, e só nos dois últimos tive coragem de entrar na sauna usando apenas a roupa de banho. Nessa altura já estava muito mais magra do que na entrada. Nunca esqueço a reação espantada do meu pai ao me ver: “Nossa, é você mesmo?”. Eliminei 18 kg, estava muito feliz, mas sabia que ainda havia muito trabalho pela frente.

Aos 14 e 15 anos: em pouco tempo, uma nova garota (Fotos: Arquivo Pessoal)

A receita das famosas

“As famosas são adeptas da aplicação de enzimas”, me garantiam algumas amigas na escola. Enquanto eu me identificava com a personagem Mili (Fernanda Souza), da novela “Chiquititas”, que não era magrinha, e Laura, de “Carrossel”, menos ainda, eram Sandy e Christina Aguilera, ambas magérrimas, que recebiam elogios dos garotos. Eu estava cansada de somente desejar um namorado, estava insatisfeita com o meu visual e a primeira leva de quilos eliminados dava-me força e coragem para fechar a boca, sem precisar recorrer aos remédios de regime.

Comecei a receber aplicações de enzimas semanais, no bumbum. Era uma picada por semana, e sinceramente eu não me incomodava. Sempre fui durona pra essas coisas, e não havia nenhuma reação ao tratamento. Não ardia, não ficava roxo, nada disso. Simultaneamente, eu deveria cortar o açúcar e as frituras do meu cardápio, além de realizar sessões de drenagem linfática. Já usando sandálias plataforma, calças jeans com stretch e camisetinhas na Galeria do Rock – centro de compras moderninho localizado no centro de São Paulo -, eu me olhava no espelho e via alguma graça em mim. Fiz as primeiras mechas loiras no cabelo e, seguindo recomendações, mudei o desenho da sobrancelha.

As drenagens diluíam os nódulos de gordura do meu corpo, as enzimas as queimavam e eliminavam, a dieta ditava o consumo de alimentos saudáveis. Em cinco meses eu estava com o meu peso ideal, sem barriga. Por outro lado, me sentia  prestes a surtar, entrar correndo no Mc Donald´s mais próximo e pedir um Big Mac, tomar uma Coca-Cola ou devorar  um chocolate. Apesar da vontade, que às vezes quase me vencia, eu estava decidida a continuar magra.

Aos 13 e aos 16 anos: a surpresa de descobrir as formas do meu corpo e promover uma mudança física e mental (Fotos: Arquivo Pessoal)

Livin´ la vida loca

Aos 16 anos, ao longo de um ano inteiro, eu sentia que tirava o atraso da minha adolescência. Saía para as baladas, bebia, beijava na boca. Não era exatamente feliz com esse estilo de vida, mas estava alegre pelo momento. A imaturidade me fez crer que tudo seria assim mesmo, pelo resto de meus dias.

Depois de algumas ressacas e conselhos do meu pai, voltei a frequentar um pouco mais a minha casa. Sim! Porque eu emendava a faculdade com o estágio, o estágio com o bar, o bar com a faculdade, dormindo na casa de amigas. Naquele período eu aprendi a andar de salto alto, usar camisas justinhas e abertas em locais provocantes para me sentir desejada. Achava que estava um arraso.

O ponteiro volta a subir

Em casa, eu comia mais do que na rua. Abria exceções para um brigadeiro caseiro, um pouco de refrigerante, um pacotinho de bolacha… Quando vi, estava engordando outra vez. Tentei a dieta do tipo sanguíneo. Como meu sangue é “O”, descobri que posso me jogar em determinadas carnes, frutas. Nada de destilados ou bebidas gaseificadas. Mas eu havia voltado a sentir o gosto do bom e velho cheddar, chupava minhas balas, comia lasanha. Eu já tinha paquerado um pouco e não era mais tão tímida. Então por que eu iria me torturar e não comer o que queria?

Aos 17 anos, eu havia adquirido de volta 10 kg dos 30kg eliminados. Algumas das minhas novas calças começavam a ficar esbranquiçadas entre as coxas, outras já não fechavam mais. As blusinhas mostravam meus pneus… Aos poucos, comecei a conviver de novo com a agonia de viver que eu sentia no passado. Conclusão: era hora de emagrecer novamente.

A mágica da sibutramina

Remédios podem emagrecer. Realmente podem. Mas de nada adiantam se você não “emagrecer” também dentro da sua cabeça. O que te faz comer? Carência, desespero, ansiedade? Nenhum remédio vai te curar de seus problemas psicológicos, mas eu ainda não estava preparada para ser obesa outra vez. Eu não aceitava minhas fraquezas. Então fui a uma consulta médica e as instruções que recebi pareciam um passe de mágica. A fórmula das cápsulas continha sibutramina, anfepramona, entre outras substâncias capazes de enganar o organismo.

Emagreci. Não sentia fome, mas também não sentia sono. Quando eu não estava muito triste, certamente estava muito feliz, ou contrário. Minha dieta para passar dois dias era um copo de suco. O dia inteiro mascava chicletes sem açúcar. Uma vez ou outra me forcei a comer meia maçã para combater a tontura. Estava fraca, com a garganta inflamada — imunidade baixa. Mas nunca estive com o rosto tão fino! Barriga de fora, calça caindo… Aquela garota que um dia só coube em camisetas tamanho GG hoje pegava emprestada a camisa de uma amiga magérrima para ir a uma festa. Mal-humorada, mas magra. Em contrapartida, onde estava aquela garota que fazia festa quando recebia um sorriso?

Se valeu a pena? Valeu a experiência. Hoje eu sei o que eu quero e o que eu não quero pra mim. Sou feliz assim, pesando 20 kg a mais do que o intitulado peso ideal – 87kg ao invés de 67 kg -, mais loira do que nunca, com rímel, salto alto e me sentindo desejada mesmo com a barriguinha coberta. O que eu tenho de bom a oferecer é mais profundo do que as curvas do meu corpo: é algo que está dentro do meu coração.

Por hoje é só. No próximo post, conto pra vocês como e quando me assumi como Plus Size e como é a minha rotina!

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Sobre blogfatshion

Modelo Plus Size, empresária e dona de um amor próprio que não tem tamanho, Carla Manso une o útil ao agradável ao escrever sobre moda para quem sonha em ser exatamente o que é.
Esta entrada foi publicada em Beleza, Noias. ligação permanente.

24 respostas a Minha vida: um eterno sobe e desce do ponteiro da balança

  1. Ju diz:

    Pior que parece que temos que passar por todas as fases pra aprender, né?! adoro ler o que vc escreve.

    beijos

  2. marcelo diz:

    Você foi e é maravilhosa !!!

  3. Louise Zaffalon diz:

    Li, comento e adoro! =)

  4. Dannye diz:

    Carlinha, Você escreve muito bem, seu texto chama a nossa atenção e mostra Sentimento. PARABÉNS!!!

  5. Eliane diz:

    Adoro o que vc escreve, parabéns vc é muito linda, e não é uns quilos a mais que vai fazer vc ficar feia…

  6. Adriana Santos diz:

    Adorei o texto. Acredito que toda mulher já passou por essa fase. Me vi em você. Agora eu estou com um lindo bebe e tentando voltar ao meu peso antes da gravidez, mas sem dezespero. Beijos.

  7. Sutra Abissal diz:

    Tu é linda, mocinha! Estou adorando a maneira que se expressa.

    Mulher tem que ter pneuzinhos mesmo, pra gente derrapar! :p

    Um ótimo final de semana, repleto de vitórias, conquistas e alegrias.

    Beijoca estalada nessa bochechinha macia. rs

  8. ANNABELLA diz:

    ADOORO A SUA COLUNA !!!

  9. carol diz:

    que bom q vc encontrou sua felicidade..as vezes a gente passa a vida toda buscando a “felicidade ideal” e acaba deixando de lado o vdd sentido da vida, de se amar, de amar ao proximo…vc é linda! é a primeira vez q vi seu texto , mas vo começar a ler sempre…continue escrevendo!!

  10. Carol Baggio diz:

    Carla, adorei seu blog!! o texto é delicioso e, acima de tudo, a sua postura,sinceridade e coragem são contagiantes!! O Léo Siegl e o Edu Turri mostraram o link aqui na redação, foi um sucesso!! Parabéns!!!!

  11. jose carlos diz:

    Fininha ou cheinha, não importa.
    Nunca mude o que você realmente é por dentro ou por fora :
    INTELIGENTE E LINDA !!!!

  12. Cibele diz:

    Acredito que este relato pode fazer parte da vida de várias mulheres. Hoje temos que conviver com modelos e padrões de beleza, os quais muitas brasileiras não se encaixam. É um absurdo! A beleza pode existir em todas as medidas. Espero que esta onda de plus size continue e muitas mulheres se aceitem e sejam felizes. Parabéns pelo artigo!

  13. Janaina diz:

    Pena ter que passar por tudo isso para aprender… Mas pelo menos valeu a pena. Se amar é mais importante 😉

  14. Marli Oliveira diz:

    adoro todos os posts , entro todo dia pra ver se tem algo novo, espero que os seus textos ajudem outras meninas , pois não é facil não estar no padrão . bsj

  15. JULIENE FERREIRA DA SILVA diz:

    Me identifiquei com as suas angustias, as suas fraquezas, pois a minha vida sempre foi uma eterna luta contra a balança, porem nao me aceito gorda, nao gosto de mim mesma quando estou gorda…preciso emagrecer, para me sentir bem.

  16. Samira diz:

    Carla, adoro o FATshion, todos os dias entro pra ver se vc escreveu, me identifico muito com vc, até nos encontrar-mos dentro de si mesmas sofremos muito com a “beleza magrela” intitulada pela sociedade.
    Parabéns, Bjss.

  17. Nossa amei tudo que vc escreveu, me identifiquei pacas, por motivo de saude, optei por fazer a bariátrica, perdi 36 quilos, to me sentindo super feliz, cada um sabe onde o calo aperta né? Mas vc já era linda, e ta mais bonita ainda, a maturidade ajuda, beijo!

  18. Edna diz:

    Estamos aí na batalha, mas perder a ternura jamais…no seus caso vc já é bonita e inteligente e anos so estão te acrescentanto sabedoria. Parabéns menina, o sucesso te espera.. Beijos.Edna

  19. Sarah diz:

    Adoreiiiiii!
    Parabéns, Carla…
    A sua história é linda e incentiva as gordinhas a se assumirem!!!
    É isso aí!

  20. Nyna diz:

    Bahhh…. To te adorando,vc é linda,continue escrevendo,fico muito feliz lendo sua coluna,pois ja passei por isso tbm né

    Bjão no seu coração !

  21. Tatiane diz:

    Adoro, acompanhar a sua coluna. Sempre fico na espera de mais post.
    Parabéns, por dividir conosco os seus relatos e experiências…

  22. Kelly Medeiros diz:

    Nossaa é incrével como me identifico com suas histórias, ser gordinha não é o problema, aceitar e se valorizar sim. Com o tempo percebemos que o que muda são as nossas atitudes e mesmo com “85 quilos” podemos ser felizes e super sexy. A um tempo atrás me escondia em roupas largas e pouco “desejáveis”, hoje compro roupas que me valorizam, sapato, bolsas, biju e muita maquiagem de todas as maneiras. Hoje eu amo me maquiar e toda essa mudança despertou nos olhos de muitas pessoas que me elogiam cada dia mais!!.
    O segredo: Mesmo com 85 quilos, valorizar o que você tem de melhor. Quando nos valorizamos até o nosso peso diminui.
    Bom, a matéria é excelente, parabéns !!

  23. Rogério Ribeiro Oliveira diz:

    Casa comigo !! rs
    Parabens pelo texto, verdadeiro e inteligente !
    Viva la vida ! Bjs

  24. Vanessa diz:

    Também vilo o mesmo dilema… mas assim como você passei a fase dos meus 60 kg, estou com 87 kg e me assumi assim mesmo, me produto, me visto bem na medida do possivel ( falta dim dim rsrs ), mas é isso ai… sou muito amada e querida por variosssssssss amigos…

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